Traição e Vingança em Maverich atmosférica

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Traição e Vingança em Maverich atmosférica

Mensagem por Sub Versão em Dom Abr 06, 2014 5:11 pm

Traição

Em Vale Rico havia dois poetas. Um deles tinha 88 anos. Um coronel chamado Aroldo apareceu um dia e disse para este:
- Somos amigos há muito tempo, velho, e você está para morrer. Faça, porém, um último esforço. Venha comigo e o jovem Leopoldino Caviar! Vamos denunciar os conspiradores.
Eles foram juntos, então, os três e denunciaram todos. Estes três estavam devendo ouro para a Derrama que se aproximava. Havia tensão no ar como se a morte fosse explodir a qualquer momento. O intendente das Minas ordenou imediatamente que eles fossem presos e mandou uma mensagem à metrópole imediatamente. Quando a carta do intendente estava chegando à metrópole ele saiu com toda a sua tropa e, se esgueirando pelas sombras chegou a bisbilhotar na janela da casa do coronel Oliveira. Ele estava recebendo muitas pessoas. Parecia uma festa, mas não havia mulheres, música e bebida de qualquer espécie. Havia, por outro lado bastante comida. Cochichos e vozes se misturavam em um chiado contido. O coronel Aroldo estava lá. O poeta velho e Caviar também. O Intendente prendeu todos. A maioria era rica, mas estavam endividados por causa do quinto da derrama. Havia também um alferes pobre. Os ricos foram condenados ao degredo. O alferes não teve tanta sorte.
Levaram-no até a cidade de Maverich. Montanhas e praias. O enforcaram em um evento de gala das tropas do governo aberto ao público na praça da Luminosa.

Vingança

Havia um minerador de 19 anos que não tinha nada até encontrar ouro em uma época em que o ouro estava escasseando. O nome dele era Juqueu, o Junqueira. Ele esteve aprisionado junto com o alferes por alguns dias antes de ser degredado e era homem valente. Fugiu e se escondeu na mata. À noite encontrou um local. Havia indícios de ser habitado por gente humana, perto de um rio que ficava pantanoso mais a frente. Encontrou ossadas penduradas na floresta. Crânios e tiras. Foi surpreendido por seis escravos fugidos liderados por Bagê. Ele disse:
- Nós não somos como os outros. Não pode mandar em nós. Vamos matá-lo!
- Não! Espere! Devem ter ouvido falar sobre os conspiradores que foram presos... e condenados. Apesar disto eu ainda tenho ouro!
- Não pode nos comprar!
- Eu não quero comprar vocês nem suas famílias. Estou sendo caçado pela Coroa. Posso lhes entregar agora todo o ouro que me resta se me ajudarem a resgatar o alferes.
Assim, na noite em que enforcaram o alferes na praça, Bagê e o Junqueira estavam lá, mas não puderam resgatá-lo. Juqueu tentou fugir de Bagê, se misturando na multidão. À noite, porém, eles voltaram à praça e ficaram olhando de longe, escondidos, nas sombras.
O Intendente das Minas e dois comandados arrancaram a cabeça do alferes.
- Isto! Está muito bom assim! Agora eu vou deixar vocês aqui. Esquartejem – no e vigiem os pedaços. Vamos levá-los de volta para Vale Rico.
À noite, porém, Bagê encontrando o Junqueira discutiu com ele e o esfaqueou porque o Junqueira queria salvar o corpo do alferes. Ele encontrou o documento de uma mina de ouro no bolso de Juqueu. Bagê queria que esquartejassem o corpo do alferes e ficou esperando. Quando os dois homens da tropa do intendente esquartejaram o corpo do alferes o estertor do Junqueira já tinha soado. Os dois da tropa foram se divertir com prostitutas e não vigiaram o cadáver. Bagê roubou todas as partes e nos dias seguintes foi enterrando todas (as partes) espalhadas pelas cidades em redor de Vale Rico.
Quando os dois da tropa voltaram e não encontraram os pedaços do cadáver esquartejado no lugar em que haviam deixado, ficaram com medo. Perambularam por toda a cidade de Maverich e encontraram um mendigo bêbado pela madrugada. Eles o mataram porque ele era parecido com o alferes. Então arrancaram a cabeça do mendigo e o esquartejaram. Espalharam os pedaços pelas cidades ao redor de Vale Rico.
Destruíram a casa do alferes e salgaram toda a terra que ele pudesse ter.
Pouco depois chegou um homem santo entre Bagê e os amocambados e pediu para ver o cadáver do alferes. Eles desenterraram os pedaços e os reuniram na mina abandonada de Junqueira. Debaixo desta terra o homem santo costurou misticamente todos os pedaços e disse:
- Este será o braço terrível da vingança mais pura!
A partir daquele momento o alferes se levantou transformado em um zumbi. Ele perseguiu os dois poetas traidores e o coronel Aroldo. Primeiro ele apareceu na frente do poeta velho usando uma máscara que o homem santo colocara sobre o rosto dele. O velho morreu de pavor. O alferes arrancou todos os dentes dele enquanto ele estava vivo, na cidade de Coluna. Em Taqual matou o coronel da mesma forma, depois de arrancar todos os dentes da boca dele enquanto ele estava vivo. Demorou a madrugada inteira. Ele seqüestrava ou atría as vítimas para as matas e lá elas gritavam de pavor e de dor, até morrerem olhando para face do escárnio. Depois ele encontrou Leopoldino Caviar arrancou todos os dentes dele como fizera com os outros. Milagrosamente, porém, Caviar sobreviveu, tendo sido encontrado pelas autoridades que estavam à procura do assassino lendário que se espalhara pela região.
Aos poucos as pessoas foram se esquecendo do alferes, mas Caviar nunca se recuperou. Pouco tempo depois o jovem se suicidou e foi enterrado. Aos poucos as pessoas foram se esquecendo do alferes.
Fim

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Re: Traição e Vingança em Maverich atmosférica

Mensagem por Sub Versão em Seg Nov 02, 2015 2:05 pm

Aí, galera, resolvi voltar a escrever

Vingança sem fim
Há muitas décadas o homem santo foi capturado em um continente distante. Seu lugar de origem era um grande deserto. Ele descendia dos chefes de sua tribo. Estes (os chefes) eram considerados santos, capazes de fazer coisas espantosas, desafiando as leis da natureza, dominando-a de acordo com a própria vontade, segundo a crença de seu povo. Quando criança ele ainda não era, porém, considerado santo, nem era capaz de realizações fantásticas. Poucas lembranças. Então a juventude chegou. Agressividade. Ser aceito entre os adultos da tribo. O ritual de maioridade. Seus pensamentos estavam sobre sua cabeça: seria escoltado por sete homens (armados) aos confins do deserto. Se voltasse em menos de quatro dias, nunca seria santificado. Se, por outro lado, ele retornasse após os quatro dias, significaria que os espíritos maiores o absolveram de sua culpa, premiando-o com a santidade, e permitindo sua permanência no mundo dos seres viventes, que se alimentam da pureza do ar e de suas vibrações. Certamente sua experiência foi diferente do planejado.  
Este dia parecia não chegar, mas o tempo passou, um dia depois do outro, devagar, se repetindo com a poesia imperceptível da vulgaridade e da invisibilidade. O infante se desenvolveu fisicamente. Acreditava estar pronto. Educado nas crenças e rituais desde pequeno esperava pela oportunidade de experimentar a diferença entre suas expectativas e a realidade. Ele tinha um dever para com os de sua tribo. Isto estava claro apesar de sua inexperiência com a loucura, com a fantasia absurda da autodestruição, do prazer em si mesmo. Dá vontade de rir. A tragédia tem um lado sarcástico e um lado cínico. O drama que se desenrola é pior. Difícil de degustar. É como uísque gelado ao som de uma música extrema, não que imaginasse o que são estas coisas o homem que seria santificado com grilhões de ferro frio, e solidões de abandono em meio ao escorbuto e a promiscuidade no porão de um navio, sob o comando de um escravista e seus homens brancos e esquisitos. Os adultos da tribo tinham contado histórias sobre estes (uns homens brancos, sanguinários, que traziam as chamas da guerra e os ferros do aprisionamento). Até a noite antes do ritual de maioridade o jovem acreditava que apenas diziam aquelas coisas para assustar as crianças. De todo modo, parecia uma realidade distante.
No dia seguinte estava entardecendo. Antes do cair da noite, deviam partir. Mesmo assim estava faltando um dos homens para que estivesse completa a composição da escolta. Quando iam perguntar por ele uma de suas esposas "apareceu" dizendo que o mesmo saíra para caçar o almoço e não retornara. Decidiram ir procurá-lo, deixando a esposa sozinha em suas preocupações. Encontraram os pedaços do guerreiro. Espalhados. Quando encontraram sua cabeça, pouco mais a frente, naquela face desfigurada pela dor extrema, viram a agonia de sua morte. Com ele estavam alguns amigos ou parentes. Todos mortos. Três cadáveres ao todo.
Até então a paz estivera garantida com as tribos vizinhas, mas estas foram as primeiras suspeitas consideradas pelo chefe da tribo, o pai do garoto que logo seria capaz de coisas inacreditáveis, dominando forças maiores que a mediocridade, a seu próprio modo exercendo o poder, escolhendo com meticulosidade as formas de exercê-lo. Naquele momento, porém, decidiram ir para o deserto com um a menos na escolta, e deixar os rumos de uma possível guerra para serem decididos com base em mais informação.
Estavam adiantados no caminho para o interior da vasta região desértica quando perceberam que a tribo estava em chamas, e que alguns homens vinham em sua direção, montados, em um galope furioso, gritando a guerra com os dentes a mostra e brandindo armas capazes de cortar com suavidade. Os estampidos se tornaram nítidos e a morte chegou naquela hora para muitos da tribo, atingidos pelas balas certeiras. Um homem branco parou diante do chefe e falou em um dialeto comum a muitas tribos da região:
- Eu sou o chefe desta expedição! Tenho que eliminar você! Diga suas últimas palavras!
- Que este momento fecunde a vingança sem fim!
As palavras voaram, soltas na atmosfera e em meio aos gritos e ao crepitar das chamas se perderam em um momento dilatado. A seguir, a solidão inerente a morte. O som do tiro foi violento e o projétil estourou diversas estruturas importantes do cérebro da vítima. Um cadáver foi tudo o que restou. Uma estória que começa com o fim de outra. Então a responsabilidade sobre o futuro de sua tribo saiu de um e foi para o outro, mas o santo estava morto e a tribo se rendeu rapidamente.
Porém, de onde estavam, o agora "chefe" da tribo não podia fazer nada. Tentaram fugir e foram perseguidos pelo deserto, através da noite, por um bando de "coiotes" sedentos pelo término deste serviço. Desta forma eles entraram cada vez mais no deserto, até que a noite uma tempestade de areia se formou e diminuiu a visibilidade do campo de batalha. Os homens do deserto, habituados a lutar neste ambiente, se reuniram e rapidamente decidiram que este momento devia ser aproveitado para atacar, pois teriam a vantagem contra os invasores. Enquanto isto, o santo prosseguiria pelo deserto, adentrando cada vez mais naquele território alucinante.
Os ventos eram ferozes e a areia era cegante. Difícil abrir os olhos, ainda que por um momento. Os dez homens brancos que os perseguiam estavam parados, enquanto os homens da tribo se aproximavam furtivamente para assassiná-los sorrateiramente. Sobrevivência. Então os cinco da tribo partiram para o ataque. Os brancos tinham armas afiadas e eliminaram dois da tribo, mas quando todos os brancos jaziam sem vida no chão do deserto, ainda havia quatro homens da tribo negra vivos. Então decidiram voltar a tribo para tentar rastrear o inimigo ou talvez encontrá-lo ainda na própria tribo. O fato é que tinham que esperar o fim da tempestade de areia e acabaram adormecendo.  
A dança bruxuleante da alucinação
Quatro dias depois, à sua frente o homem santo via apenas alucinações. Vozes que sussuram desvarios desconexos carregados de uma força de destruição. Seus sentidos estavam entorpecidos. Estava quase desmaiando e para piorar outra tempestade de areia se formava no horizonte, diante de seus olhos estava chegando. Nos últimos três dias ele fugiu. Aquele deserto tinha poucos animais, mas estes podiam ser mortais se "aparecessem". Tribos hostis das quais ele se desviou, guardavam todos os pontos onde havia água potável. Esta manobra teve seu preço: durante os três primeiros dias o garoto sobreviveu bebendo água de certas raízes do deserto, mas a medida que adentrava (o deserto) rumo a seu destino, estas escassearam, e no quarto dia ele estava quase morrendo de sede. Caiu. Calor. A areia estava quente. Ele fechou os olhos e adormeceu em meio a tempestade. Então começaram as "vozes" das hienas. Pareciam vir sentindo prazer. Sentiam cheiro de presa fácil. O homem santo se ajoelhou. Estava cercado por hienas. Elas estavam esperando. Iam atacar, mas um grande leão e uma leoa afugentaram as hienas. Incapaz de fugir, o jovem apenas esperava sua morte, mas no semblante do leão estava a glória e as alucinações sonoras que ouvia se transformaram no som retumbante dos tambores e chocalhos. Uma série de pessoas foi surgindo diante do garoto e ele se perdeu em meio aos movimentos da dança. Em transe o garoto dançava alucinadamente na presença de seus antepassados, até que os tambores cessaram e o garoto percebeu que estava em um lugar alto. Assustando-se ele virou-se para trás e viu algo indescritível lhe dizendo: "terá o que procura, mas qual é o preço?". O medo cobriu a face do garoto, e ele se desequilibrou, caindo (de uma grande altura) na água. Desmaiou enquanto descia cada vez mais para o fundo.
Aos poucos começou a escutar vozes. Recobrando os sentidos percebeu que alguém estava lhe puxando. Quando sua cabeça "apareceu" acima da água ele ouviu gritos em uma língua que estranhamente reconheceu: a língua dos brancos. Seria este um dos milagres? O santo entendia o que diziam. Estavam agora abertos os portais do entendimento.
De um navio de madeira escurecida, veterano de dez anos de viagens (após passar por inúmeros capitães e ainda maior número de reparos) os brancos anunciavam:
- Homem ao mar! Homem ao mar! Homem ao mar!
Suas vozes vinham do navio "Tihrannia". Ele subiu a bordo e padeceu de febre por vários dias. Ninguém cuidou dele, mas a criança sobreviveu. Após alguns dias a bordo ele começou a melhorar. Os testes ainda não tinham terminado. Chamou a atenção dos companheiros:
- Vocês são todos estranhos uns para os outros, mas estamos no mesmo barco, teremos um destino comum, mas não será como pensam... o que vai acontecer hoje a noite no mar sombrio e assombrado por criaturas monstruosas e sanguinárias? Quando a névoa cair sobre nós como um véu de confusão e morte?
Durante a enfermidade do garoto comentavam coisas mirabolantes. Quando o encontraram, já havia um dia que tinham partido e estavam em pleno oceano. Antes que pudessem fazer qualquer coisa, as palavras do santo causaram pânico e um tumulto começou no porão do navio. Ninguém entendeu o que significavam as coisas que ele dissera, mas suas palavras foram capazes de despertar ódio entre os outros escravos, que se reuniram mancomunados para matá-lo, mas as correntes impediam que seu intento fosse realizado naquele momento. A gritaria no porão do navio acabou se generalizando. Pânico.
No convés do navio o capitão foi informado sobre a agitação. Quando chegou com alguns homens ficou quieto um momento enquanto os escravos se rebelavam contra suas correntes com fúria; aos poucos os escravos perceberam sua presença e se acalmaram antes que ele começasse a atirar:
- Você... o que está havendo? – perguntou o capitão para um entre os escravos. Este último hesitou em responder:
- Eu não sei...
- Não responda isso, eu vô perguntar de novo, bastardo! e se não me responder algo melhor vou abrir um buraco em suas entranhas!
- Mau presságio! mau presságio!
O comerciante de escravos se cansou e atirou, trazendo a morte para este escravo. Suas expressões endureceram e foi como se algo tivesse morrido dentro dele (mas não tão morto quanto o escravo ensanguentado a seus pés). Silêncio. Sombras. Um dos escravos tentou matar o capitão do navio sufocando-o com as próprias correntes, mas a tripulação do navio perfurou seus pulmões com facadas antes que ele conseguisse. Horror. Enquanto o capitão recuperava o fôlego, uma pessoa descia os degraus retráteis para o porão do navio.
- Capitão! Capitão! – vinha gritando -- está vindo uma névoa esquisita em nossa direção.
Um dos escravos começou a gritar:
- Será o nosso fim que se aproxima! Juju! Os mortos estão voltando!
Os escravos entraram de novo em pânico. No meio da confusão um dos escravos percebeu que aquele que tentara matar o capitão, conseguiu roubar as chaves de suas correntes. Ninguém mais parecia ter percebido. Estava quase morto, segurando as chaves e mais ninguém estava olhando para ele.
Enquanto isto no mastro da gávea, fitando o horizonte enevoado estava um daqueles velhos lobos do mar. De repente uma silhueta gigantesca (de um navio de linha de três cobertas e 98 canhões, do século XVII), surgiu no meio do nevoeiro, vindo em direção do navio Thirannia em alta velocidade. O choque será inevitável. O vigia tentou avisar a tripulação:
- Vamos bater! Vamos bater! Ahhhhhhhhh...- ? Um baque sacudiu o navio inteiro e o vigia caiu no mar. Apesar disso, ele sobreviveu. A proa do velho navio de linha rachou o casco do navio negreiro a estibordo, fazendo um grande buraco no porão do Thirannia, que começou a inundar. O impacto derrubou todos que estavam no porão. Os homens brancos fugiram rápido após se recuperarem da queda. Alguns deles, porém, não tiveram tanta sorte. Ficaram presos, agarrados pelos escravos. Acorrentados se afogarão em breve. A chave das correntes caiu perto de onde se encontrava o homem santo. Ao se levantar da queda este se libertou, entregando depois a chave para o outro que estava a seu lado.  
O capitão do navio dos brancos já estava no convés procurando entender o que tinha ocorrido. Vendo que tinha sido atingido por outra embarcação e que seu próprio navio estava afundando com todos os escravos (assim achava ele) invadiu, com seus homens, o outro navio decidido a tomá-lo ou morrer tentando. Desta forma ele chegou, com sua tripulação, rapidamente ao convés do outro navio, onde apenas o silêncio o recebera. Não havia ninguém vivo na embarcação. Assim parecia. Cadáveres carcomidos, tripas e sangue estavam espalhados pelo convés do navio até onde a vista alcançava. Ao redor tudo era névoa fantasmagórica. Desta forma eles se espalharam pelo convés e para o interior, intrigados pelo mistério de tal embarcação e sua névoa.
No porão do navio a água estava invadindo rápido. O navio afundará em breve. Não há o que fazer. O homem santo subiu para o convés do Thirannia. Encontrando uma corda com um gancho na ponta ele arremessou, encaixando a ponta do gancho na borda da outra embarcação e subindo pela corda até o convés do outro navio. Enquanto subia viu o nome do navio: “Phantasma”. O homem santo olhou para baixo, mas a névoa densa impedia a visão pouco além de si mesmo. Nada pôde ver. A névoa era densa demais. Por este motivo ele não viu que apenas quatro ou cinco pessoas conseguirem escapar a nado do Thirannia, que afundou com todos os outros. Centenas de mortes. Os que sobreviveram começaram a subir pela corda. Por coincidência estes eram os mesmos que decidiram eliminar o homem santo do reino dos vivos.
O homem santo olhou ao redor. O céu estava escondido por trás da névoa. Não havia ninguém no leme, mas um homem branco estava rastejando sob o mesmo. Seu corpo tinha sido partido ao meio. Seu sangue estava espalhado pelo convés. Seu olhar era a dor e sua esperança era a morte. Em agonia e choque seus olhos nada viam enquanto a realidade se dissolvia em inanição até que seu estertor anunciou o fim de seus sofrimentos. O homem branco estava morto. O homem santo pensou: “é mesmo vingança que procuro?”. O homem a sua frente parecia mais uma vítima no chão, embora desde muito cedo ele tivesse se unido a outros para matar e pilhar. O santo olhou novamente para os olhos da vítima. Dor. Ele fechou os olhos com vontade de chorar. O oceano traga suas vítimas como a fumaça de um cigarro e quando seus corpos desaparecem tudo o que resta é uma lembrança abstrata como o passado.
Alguns sons a bombordo. Alguém está gritando:
- Socorro! Alguém me ajude!
Alguém (o vigia) estava gritando na água. O santo deu as costas e desceu por uma escada até o convés. Ia entrar em uma cabine abaixo do leme quando os escravos sobreviventes o circundaram. Um deles ordenou:
- Segurem-no antes que ele possa usar de sua bruxaria!
Quatro grandes homens seguraram suas pernas e braços, imobilizando-o por completo.
- O que significa isto?
- Você é o responsável por esta bruxaria! Sua morte aplacará a ira dos demônios que comandam este navio do inferno.
- Enlouqueceu!
- Basta! Este é o seu fim! - erguendo o punho para desferir o golpe fatal o grande guerreiro negro se deteve ao ouvir um som esquisito nas névoas do convés. Um pouco depois perceberam que parecia com um gemido. Alguém estava se aproximando e parecia estar sentindo muita dor. O espanto surpreendeu a todos quando surgiu das névoas com os olhos mortos um homem caminhando. Com o estômago aberto e roupas cobertas por sangue seco, sua pele apodrecida era a linguagem do medo e sua face era o escárnio do sofrimento.
Esta figura sinistra atacou um dos guerreiros negros, enlaçando o pescoço do último com os dedos carcomido até os ossos, até os olhos do mesmo saltarem das órbitas, para serem devorados avidamente pela espectro do horror diante de seus semblantes.
- Ahhhhhrgggh!
Enquanto o guerreiro negro estertorava, aquele com a faca (que ele encontrara no estômago deste mesmo homem morto que estrangulara seu colega), decidiu que deveria acabar logo de uma vez com o garoto, mas este se aproveitou do breve momento de hesitação e golpeou com a cabeça os homens do guerreiro negro das tribos inimigas, se libertando e fugindo, enquanto o cadáver ambulante rasgava as vísceras de mais um dos sobreviventes do naufrágio do Tihrannia.
Eles logo ficaram para trás, perdidos no meio da neblina. Ao entrar nas sombras do Phantasma o santo encontrou uma tocha. Gritos de horror. Parecem ter vindo das camadas inferiores do navio. Vagarosamente ele desceu ao fundo do navio, com a tocha na mão e um nó na garganta. Então ele presenciou a morte dos homens brancos. Os zumbis estavam devorando suas vísceras, mas um dos brancos escapou: o capitão do navio, aquele que assassinara seu pai. Os zumbis se detiveram e não ameaçaram o santo. Por um momento tenso palavra alguma foi pronunciada. Então o santo refletiu sobre tudo aquilo e tomou sua decisão, ateando fogo no inimigo. Enquanto o homem branco chefe dos traficantes de escravos se contorcia na dor e na loucura, o santo exclamava:
- Que este momento seja o início da vingança sem fim! – um trovão ribombou, com o vigor da criação. Seu estrondo é a voz arte. Então uma risada ecoa na mente do homem santo, enquanto ele cambaleia rumo aos meandros da insanidade.
Todos no navio pareciam estar mortos, mas os zumbis mantinham-se afastados do santo. Ele subiu arfando e com o coração acelerado, voltando ao convés. Ao chegar, levantou os olhos. Um relâmpago riscou o céu tomado pela neblina. Seguindo um pressentimento o santo subiu até a gávea, no mastro principal. Os trovões e relâmpagos marcavam sua presença aleatoriamente, enquanto os ventos se intensificavam. Ao chegar a gávea o santo sentiu a energia maligna do navio. Ela disse, com uma voz sem forma:
- Bem-vindo ao meu lar! Não verá minha face, mas sentirá a minha presença. Sua morte não será agora, mas quando isto acontecer, se lembrará dos rostos dos que morreram hoje, e saberá que este foi o preço para que pudesse vingar sua tribo. Por toda a vida lutará contra meus aliados e se confundirá com o significado de suas escolhas. Procurará a certeza, mas só encontrará a dúvida no caminho da santidade, escorregando as vezes para o domínio da irracionalidade.
A vertigem voltou a tomar posse do santo e ele caiu na água de novo. Com uma sensação de dejavú ele sentiu que alguém estava puxando-o para dentro de um bote. Perguntando-se se tudo não fora um pesadelo, ele voltou a discernir o significado das palavras trocadas entre dois homens:
- Deveríamos deixá-lo se afogar. Ele é o responsável por tudo!
- Está errado, este homem pode ser útil mais tarde, assim como você. Esta é a única razão pela qual vocês estão vivos. Há muito tempo atrás eu fiquei perdido a deriva no oceano e só sobrevivi até ser encontrado por homens de outro país que aprisionaram até que encontramos piratas em alto mar porque devorei os corpos dos meus camaradas mortos. Se for preciso eu os matarei e comerei sua carne para que possa continuar vivo. Esta é uma vida dura, mas é a única que tenho.
Estes dois eram o escravo (que tentara apunhalar o santo na frente da cabine no convés) e o vigia (que caíra no mar). De alguma forma este conseguiu subir no navio e fugir em um bote salva-vidas, capturando o guerreiro negro e salvando o santo que caiu perto do bote na água antes que ele tivesse se afastado muito do Phantasma. A névoa estava se dissipando, mas a chuva começava a cair, agitando as águas oceânicas e balançando o bote como uma mãe balançando o berço onde adormece sua cria. O branco amarrou os dois negros, e tentou reunir água potável da chuva em uma garrafa de rum.
Dois dias depois a garrafa já tinha acabado e parecia que não ia chover. Tubarões famintos rodeavam os homens no bote, escarnecendo de uma existência cruel. Levantando-se no bote o velho lobo do mar, um homem branco, cortou com um facão a perna do guerreiro negro e o empurrou para fora do bote. Os tubarões devoraram-no em instantes, mas sua perna ficou para ser consumida pelo branco. O santo pronunciou as seguintes palavras:
- Você está perdido... é um homem morto assim como nós e os outros... encare a verdade, não escapará desta com vida. Deveria se suicidar logo de uma vez e para de sofrer.
- Eu deveria matá-lo agora mesmo... talvez seja o que você quer dizendo estas coisas pra mim, mas não morrerá tão rápido.
Mais uma noite se passou. O velho lobo do mar estava alucinado com a sede e a fome. Então ele soltou o santo e pediu que este o matasse. O santo apenas riu. O homem branco adormeceu. Acordou de repente quando amanhecia um novo dia. Caíra na água. O santo disse:
- Pagará pela morte da minha tribo! Que este seja um ato em nome da vingança sem fim!
O bote foi se afastando. A esperança do homem branco se esvaiu e ele morreu afogado na imensidão do mar. Durante quase um mês o santo esteve a deriva, pensando na morte e no sentido de sua vida. Sem o desejo por vingança ele estaria morto. Ele foi encontrado por outro navio negreiro, que chegou ao porto de Rochedo, onde ele foi comprado alguns dias depois, por um rico pecuarista do nordeste, em um mercado de escravos.
Esta é a origem do homem santo.

FIM

Em quinze dias (17/11/2015), publicarei mais uma história de terror neste post. Se alguém quiser dizer o q achou deste "lixo", fique a vontade.

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Re: Traição e Vingança em Maverich atmosférica

Mensagem por Sub Versão em Ter Nov 17, 2015 7:02 pm

A máscara de ouro
Agora, porém, muitas décadas depois da juventude do homem santo, cinco homens perseguiam-no.
Nesta época ele guiava o bando de Bagê.
Aqueles que o perseguiam queriam capturá-lo porque ele tinha fugido das fazendas dos diamantes, escapando do homem que julgava tê-lo escravizado: o Intendente. Fazia três anos que fugira, pouco antes de encontrar Bagê pela primeira vez, e achava que estava seguro ou que escapara das garras do Intendente. Por isto se afastara do grupo pensando em destruir a máscara de ouro que em vivos torna os mortos e em mortos os vivos.
Ele se arrependera de ter criado a máscara, mas quando percebeu que estava sendo seguido pensou imediatamente na possibilidade de serem homens contratados pelo Intendente, e decidiu que a mesma ainda tinha seu propósito. Então ele os atraiu até uma mina abandonada, onde a máscara estava escondida. Ele entrou. Seus perseguidores o seguiram para o interior da mina. Escuridão. Decidiram iluminar o caminho com tochas. A luz atraiu o primeiro portador da máscara: um monstro assassino. Com uma faca, ele esparramou as vísceras de um dos homens do feitor.  
- E então? Eu devo me apresentar ou ainda se lembra de mim? – disse o homem santo, surpreendendo seus perseguidores, enquanto se aproximava com uma tocha nas mãos. O monstro aquietou-se por um momento sob o comando do santo. Seus perseguidores, no entanto, não largaram as armas ou se renderam. Apenas o capitão do mato (o feitor) não estava armado. Ao invés disso mantinha as mãos no estranho cinto místico que lhe foi entregue especialmente para a captura do santo. Tudo que ele tinha que fazer era colocar o cinto em contato com o corpo do santo. Contudo ele resolveu esperar outro momento para fazê-lo. Ao invés disto apenas respondeu com certa dureza:
- Está sob a mira de todos nós. Um passo em falso... é como se diz... você estará morto!
- Não era você que me chicoteava quando eu não cumpria suas estúpidas ordens? Não era você que tentava me escravizar? Não foi você que eu esfaqueei três anos atrás?
- Ah, você se lembra de mim... mas não vai acontecer de novo!
Um dos homens do feitor atacou o santo a coronhadas. Porém, com a força de sua pureza, o santo rechaçou este inimigo, empurrando-o para longe e nocauteando-o. Outro tentou atacá-lo, mas teve a garganta agarrada e triturada pelas mãos do monstro com a máscara de ouro. O oponente que restara largou a arma e segurou os braços do santo, empurrando-o na parede. O feitor tentou escapar e saiu correndo.
- Pegue-o vivo! – arfou o santo, enquanto lutava com um dos homens do feitor.
O monstro jogou a faca na perna esquerda do feitor enquanto ele corria. Este caiu no chão, se contorcendo em dor.
- Agora me ajude com este aqui! – ordenou, em seguida, o santo, se referindo ao oponente que tentava imobilizá-lo.
O monstro arrancou a faca da perna do feitor e cambaleou em direção do novo alvo. O primeiro que fora nocauteado pelo homem santo recuperou os sentidos e atirou no monstro. Bang. O tiro estrondou, ecoando pela mina. O monstro foi atingido, mas o tiro não provocou o efeito que geralmente provoca. Não foi o suficiente para deter a criatura sob a máscara.  Após recarregar e pilar a pólvora, colocando um novo projétil na arma, mais um tiro atingiu o tronco do mostro, que se agigantava diante do capanga do feitor. Com a faca o monstro perfurou o estômago e os pulmões da vítima (o capanga do feitor). Manchas de sangue na faca. Dor e asfixia. Enquanto isto, o estrondo dos tiros vibrou pelas paredes da mina e um grande volume de terra, das paredes e do teto da mina, desabou sobre o santo e seu inimigo, derrubando-os no chão, ocasionando um choque nas costas deste outro capanga que caiu na inconsciência.
O feitor já estava fora de combate, tentando se arrastar para fora da mina abandonada e fugir da escuridão, mas o monstro foi até ele e o carregou (junto com seu capanga), amarrando suas mãos com uma corda e prendendo-os em trilhos (que os garimpeiros usavam para deslocar o ouro de um lugar para o outro da mina, talvez há quinze ou vinte anos, antes da decadência) similares aos trilhos de um trem.  
Estava escuro. A vingança teria um instrumento implacável. O assassino da máscara de ouro trazia nas mãos um grande alicate. O santo disse:
- Estou indo embora, mas vou deixá-lo em boas mãos... a menos que me conte o que quero saber... por que só agora veio atrás de mim?
- Eu demorei quase dois anos pra me recuperar da facada que você me deu no estômago e quase morri. Quando surgiram rumores de que um monstro aterrorizou a região, arrancando os dentes das pessoas, torturando-as, o Intendente desconfiou que podia ser coisa sua...
- Não está respondendo direito...
- Espere... após eu ter finalmente melhorado do ferimento, uns aventureiros estavam passando uns dias hospedados na Intendência. O chefe deles tinha escravizado um feiticeiro e ficava se exibindo para o Intendente. Durante uma destas exibições ele disse que poderia ver onde estava e o que estava fazendo qualquer pessoa. Eu me lembrei das palavras do Intendente na época em que surgiram os boatos e perguntei por você. O feiticeiro mostrou a todos, para o espanto dos eclesiásticos da igreja, escandalizados com as práticas do indígena, que dizia a verdade. O Intendente percebeu as vantagens de ter um escravo conhecedor das artes místicas. Então me mandou para pegá-lo... você sabe... mesmo se eu fracassar... ele não vai mais parar! e mandará outros com armas melhores do que este cinto místico!
- E o que você sabe sobre ele? - o santo já tinha percebido que o estranho cinto na cintura do feitor tinha características mágicas e ficou curioso.
- Ele devia me proteger, mas foi inútil contra a faca do seu monstro...
- Está mentindo! Você disse que era uma arma! Você acha isto engraçado!
O santo acertou-o no maxilar superior três vezes.
- Eu não sei direito...ughhh.. juro... só sei que é feitiçaria e que...esta merda... devia me ajudar a cumprir a missão.
Aproximando-se para ver de perto o santo segurou a faca na mão direita e tentou cortar o cinturão místico, mas ao tocá-lo o mesmo se tornou uma serpente, enroscando-se no braço do santo; se deslocando com velocidade assombrosa até a cintura do homem santo, mordeu a própria cauda, fechando-se em volta dele e penetrando em sua pele como uma tatuagem na cintura. O santo sentiu dor, soltando a faca, e percebeu que estava perdendo a ligação santa com os espíritos maiores. O feitor conseguiu pegar a faca e cortar a corda que o prendia enquanto a monstruosidade assassina desabava inerte no chão. O santo foi até a monstruosidade, tirou a máscara do rosto de seu portador, e pulou dentro de um dos carrinhos da mina entrando cada vez mais fundo na escuridão sob a terra, viajando sobre os trilhos da inconsciência.
Com as últimas forças conseguiu o santo realizar um último milagre: mandou para longe dali a máscara. Viajando através de outras dimensões da realidade, seu espectro chegou a cidade e perambulou a procura de um lugar seguro. As sombras da noite se deitaram sobre a atmosfera. Exaustão. Ele alcançou uma praça. Tranquilidade. Uma brisa suave. Ele tinha que se livrar da máscara para que ela não caísse nas mãos do intendente da região territorial das minas de diamante: um homem cruel e esperto, que aliava racionalidade e frieza, um assassino, sem remorso, mas pior que isto, um mestre da tortura. O capitão do mato não ficava muito atrás, mas não tinha o poder do intendente. Era esta a diferença entre eles dois. Sim, por quê não? Era isto o que os identificava. Então eles apenas faziam o que tinha que ser feito.
Havia um escravo na praça, recolhendo alguns baús de madeira de tamanhos diferentes, um par de botas, camisas e calças de algodão (feitas manualmente), um banquinho e alguns frascos contendo tabaco. Não havia mais ninguém. O homem santo aproximou-se dele e perguntou:
- Os tempos estão difíceis. Você tem tabaco?
- Eu tenho um pouco. Meu senhor não quer que eu fume mas se conseguir renda com a venda de tabaco, poderei comprar a minha liberdade, ahaha.
- Ótimo. Me dê todo o tabaco que você tem e escute com atenção. Aqui nesta mochila está escondida uma máscara de ouro maciço. Você deve ficar com ela e comprar sua liberdade muito mais rápido que com a venda de tabaco. Ela é tudo que tenho. O que você acha?  
- Você sabe que do jeito que está... este objeto não pode ser comercializado! É necessário que...
- Que a coroa retire sua gorda parte do valor como imposto sobre o produto, - interrompeu o homem santo - o que deixaria seu senhor irritado e pouco propenso a lhe vender a liberdade. Terá que arrumar outro para colocar no seu lugar, ihihih... nos dias de hoje...? não é coisa difícil.  
Quando o escravo do comerciante gordo percebeu já estava segurando a mochila com a máscara, materializando-as naquela praça e saindo da mina abandonada em que estava o corpo físico do santo. Ela era pesada: feita de ouro maciço, como há pouco descrevera o homem santo. Contrabando. Traição. O escravo voltou-se para dar sua resposta a proposta do homem negro que estava diante dele. O espanto, porém, o confundiu. O estranho e emblemático santo que lhe tinha falado desaparecera, saindo de cena misteriosamente.

(continua no dia 1º de dezembro de 2015)

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Re: Traição e Vingança em Maverich atmosférica

Mensagem por Sub Versão em Ter Dez 01, 2015 5:02 pm

O novo portador da máscara

O escravo arrumou suas coisas e rumou para a casa do comerciante gordo, como fazia todos os dias, deixando a mochila com a máscara de ouro no chão, decidido a não levá-la para casa. Tinha sido um erro segurar a mochila; talvez também fosse um erro deixar a máscara ali, no chão da praça, para que outro viesse a ficar com a mesma. Poucos passos adiante o escravo esperto voltou para buscar a máscara.  
Pouco depois, quando chegou na casa de seu senhor, foi recebido em uma sala.
- Então? o que tem para mim hoje? rendeu alguma coisa? O que é que tem aí nesta mochila esquisita que você tá carregando? - perguntou o comerciante gordo, o senhor do escravo esperto.
- Ô, senhor, o senhor não vai acreditar. É melhor o senhor olhar isto aqui.
Quando o comerciante gordo olhou a máscara ficou fascinado por seu brilho e por sua beleza. Abriu a caixa e retirou, de dentro dela, a máscara, para poder apreciar o artefato apropriadamente. Perdido em seu fascínio colocou a máscara. Ao cobrir seu rosto com ela, a insanidade tomou o controle. Estranha inconsciência. Seu corpo agia mas a percepção se esvaíra, perambulando por lugares tétricos e difíceis de nomear, voltando ao mundo real antes de ser triturada. Empalação cerebral. Inconsciência. Violência. O comerciante gordo se levantou na sala e bateu em seu escravo: cinco socos na caixa torácica e na boca do estômago. Vômito e sangue se misturaram nas vísceras do escravo e irromperam, através de sua boca, para fora de seu organismo. Desesperado e com medo de ser espancado até a morte, o escravo foi arrastado pelo chão, da pequena sala até a cozinha. Passaram perto de um fogão a lenha. O escravo pegou um toco em brasa, e queimou a mão do homem que o arrastava, fazendo com que este o soltasse. Então o escravo se levantou e conseguiu arrancar a máscara de ouro do rosto de seu senhor, que desmaiou, acordando horas depois com a cabeça doendo e com vontade de vomitar. Estava em seu quarto, de mãos e pés amarrados com cordas grossas. O escravo estava lá e também a sua esposa. Suas vozes pareciam vir de longe. Ele readquiria gradativamente a percepção, compreendendo aos poucos os estímulos em redor de si. Sua mão estava doendo.
- Olha lá, ele tá acordando! - disse a esposa do comerciante gordo.
- Por que me atacou? - perguntou o escravo.
- Por que você está todo arrebentado? que dor é esta na minha mão?
- Você não se lembra? - voltou a perguntar o escravo.
- Ora, não me venha com esta! me solte logo de uma vez!
- Calma, querido, - finalmente interveio a esposa do comerciante gordo - nós vamos lhe explicar o que está acontecendo, realmente nós temos muito o que conversar, nós três.
- O que nós temos que conversar com este escravo? Você quer vendê-lo? Ele te fez algum mal? Se tocar em um fio de cabelo dela...
- Calma, querido, - interrompeu-o sua esposa  - você deve ficar calado por um looongo momento enquanto eeeu explico tudo porque o escravo tem alguma estima por você. Você se lembra como é que foi o dia em que nós o compramos daquele dono de bar? Nós certamente temos lembranças diferentes daquela época... - ela permaneceu algum tempo em silêncio olhando para dentro de si mesma. Então continuou, ao perceber que tinha conseguido a atenção que lhe era necessária, reconhecida pelo silêncio após suas palavras - ... alguns dias antes de nós o comprarmos você tinha ido para lá beber e ficou bêbado bem rápido, convencido pelos seus amigos idiotas. Nós devíamos ter ido para casa aquele dia, como eu insisti, após as compras da feira, mas eles apareceram e você resolveu ir com eles. Eu tive que ir também já que não conhecia ninguém com quem pudesse passar o tempo em um lugar com tão poucas mulheres decentes. Quando entramos no bar eu logo notei a habilidade do escravo que fazia os pedidos, notei sua destreza e a firmeza de seus movimentos que denunciavam sua agilidade, percebi como ele era sagaz e que era infeliz fazendo aquele trabalho. Quando chegamos em casa eu sugeri que devíamos comprar um escravo para lhe ajudar no comércio, lembra?
- Eu me lembro. - disse o comerciante gordo - Você ficou falando que eu iria ter mais lucros e quando eu disse pra você mudar de ideia você fechou a cara e, no dia seguinte nós fomos comprar este escravo escolhido por você.
Finalmente ele entendeu, com a fatalidade de um pato, como uma vítima perfeita, iludida com a linguagem sutil da traição e da falsidade, sua própria culpa, e percebeu que tinha sido cego desde o início, pois esta mulher não o amava. Com a voz trêmula ele perguntou:
- I-i-isto vem acontecendo desde aquela época?
- Desde que você o contratou! Não se lembra? eu o convenci a escolhê-lo, lembra? soube o que queria na primeira vez que pus os olhos no bichinho!
O comerciante gordo começou a chorar copiosamente. A esposa dele disse:
- Você é um covarde e eu só me casei com você porque não sabia nada do mundo. Mas depois de ter desperdiçado dois anos da minha juventude com você, me apaixonei de verdade pelo escravo esperto, da minha idade, não é mesmo?
- Será infeliz com ele, vadia! - disse o comerciante gordo.
- Não tanto quanto com você! ou melhor, era! pois assinará a libertação do escravo para que possamos ficar juntos.
- Devem estar loucos! Você vai traí-lo também! - bradou, cheio de ódio e rancor pela traição, o comerciante gordo.  
- Você logo vai mudar de ideia. - disse sua jovem esposa, enquanto o escravo esperto apertava uma mordaça no comerciante gordo.
O escravo e a esposa do comerciante gordo saíram do quarto e o trancaram. O escravo perguntou, enquanto voltavam a sala:
- Não acha que isto é exagero? tratá-lo desta forma? ele é um bom homem.
- Veja o que ele fez com você. Você mesmo o disse: ele quase te matou!
- Sim, mas é que...
- Você pediu a minha ajuda! Eu sei o que fazer ao contrário de você. Então faça o que eu estou dizendo: mantenha-o preso lá e não fale com ele! Ele vai tentar te colocar contra mim, então vamos ficar aqui, entendeu? eu vou preparar um chá para podermos conversar sobre o nosso futuro.
Dizendo isto ela entrou na cozinha, deixando o escravo na sala. Minutos depois ela voltou, com o chá. O escravo nunca estivera tão feliz. Ele tinha o amor. Para ele, um jovenzinho de dezesseis anos, o mundo estava próximo de se tornar um paraíso, pois além de estar com a mulher ele será livre. Sua única preocupação era o futuro do comerciante gordo pois o seu próprio futuro já estava assegurado. Enquanto estes pensamentos felizes povoavam a comumente triste cabeça do escravo ele bebia o chá, mas enquanto este esfriava e ele começava a se sentir um pouco tonto, novos pensamentos se configuraram nos recônditos de sua experiência. Então ele falou:
- Por que mentiu para ele? Nós nunca estivemos juntos antes de hoje, enquanto ele estava desacordado foi a nossa primeira vez juntos.
- Isto não é importante, meu amor! veja! nós temos que ficar juntos... e para que isto aconteça precisamos que ele assine sua liberdade... temos que esperar até que ele mude de ideia.
Pouco a pouco a voz da esposa do comerciante gordo deixou de ser ouvida. Em um certo momento o escravo adormeceu profundamente por causa da droga que a esposa do comerciante gordo colocara no chá, antes de servi-lo. Geralmente quem bebe este chá é o comerciante gordo.
Então ela saiu de casa e atravessou a rua, caminhando até perto dali, onde havia uma carruagem esperando por ela costumeiramente. Ao entrar na carruagem, ela encontrou seu verdadeiro amante, com quem se envolvera furtivamente há tempos, um vagabundo que ganhava dinheiro com toda sorte de golpes e estava tentando se aproximar do lado profissional da sujeirada.
- Por que demorou tanto? - perguntou ele - Estava quase indo embora.
- As coisas mudaram de repente, meu amor, nosso sofrimento acabou, nós vamos ficar ricos! veja só, no começo da noite eu ouvi um tumulto dentro de casa, mas eu estava tomando banho e não pude sair imediatamente para ver de que se tratava. Então um pouco depois, enquanto penteava meus cabelos no quarto, em frente ao espelho, nosso escravo apareceu batendo na porta do quarto, desesperado. Ele disse que tinha sido agredido pelo meu marido e estava muito abatido por causa da luta. Apesar disto ele deve ter nocauteado meu marido e agora perguntava a mim o que fazer. No início eu pensei em chamar as autoridades, mas percebi que o escravo não estava contando tudo. Então o seduzi para que me contasse o que eu precisava saber e quando ele me contou ele falou em ouro.
- Você não exagerou, podemos mesmo estar ricos, mas você viu o ouro?
- Infelizmente o escravo o escondeu antes de me procurar e não consegui que ele revelasse isto para mim. Então preparei o chá que geralmente preparo para o meu marido e o dei para que tomasse. Por isto demorei e é por isto que devemos ir até lá em casa agora para que veja tudo o que estou lhe dizendo.
Então deixaram a carruagem e foram mesmo a casa. Ao chegarem o amante da jovem esposa do comerciante gordo amarrou o escravo, e começou a procurar pelo ouro sem, contudo, alcançar sucesso em tal tarefa. Decidiu mudar de tática. Acordou o escravo e perguntou sobre a máscara, aproveitando para agredir o escravo. Quando parecia que finalmente ele ia dizer alguma coisa, o comerciante gordo atacou e levou um tiro. Caiu no chão, ensanguentado e arfando.
- Diga onde está o ouro! – o amante impetuoso ordenou – ou eu terminarei de matá-lo!
Ele preparou a pólvora e o projétil na arma. Quase atirou sem pensar, mas a voz da namorada sussurrou oiro em seus ouvidos e ele voltou a perguntar:
- Você duvida de mim?
O escravo esperto decidiu poupar a vida de seu chefe, o comerciante gordo.
- Eu posso mostrar onde está escondida a máscara! Sim! O ouro é uma máscara! Se me desamarrarem eu vou mostrar! – disse ele.
Assim eles o soltaram e ele foi direto ao lugar onde escondera a máscara. Tomando-a nas mãos ele a olhou uma última vez e a entregou ao bandido. Este sorriu e beijou sua amante.
O escravo foi amarrado novamente. A jovem esposa do comerciante gordo limpou o sangue que sujara o chão quando o tiro atingiu seu marido. Este ainda estava vivo, mas dormia padecendo de febre. Enquanto isto o amante carregava o comerciante gordo inconsciente para a carruagem, trancando-o lá. Quando estava tudo limpo, arrumado e asseado na casa, eles partiram (de carruagem), levando o escravo esperto amordaçado, e com as mãos amarradas, e o comerciante gordo, perto das suas últimas horas neste mundo. Além destes ainda foi com eles o condutor da carruagem.
Foram para fora da cidade e se dirigiram para a zona rural onde poderiam se esconder até tudo se acalmar. Ao final da manhã, no início da tarde, alcançaram uma casa grande abandonada em ruínas, aos pés das montanhas. Alguns quartos estavam em condições de uso, apesar do perigo constante do teto desabar. Era imprescindível manter segredo sobre a máscara e encontrar as pessoas certas para derreter o ouro, falsificando a fundição da Coroa, e mantendo o valor da máscara.

(continua no dia 15 de dezembro de 2015)

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Re: Traição e Vingança em Maverich atmosférica

Mensagem por Sub Versão em Seg Jan 25, 2016 8:30 pm

Bons capangas são difíceis
Enquanto eles viajavam pela madrugada, o capitão do mato e seu último capanga soltaram-se dos trilhos da mina, cortando as cordas que os prendiam e retomaram a caçada ao homem santo odiado. Mergulharam profundamente na terra que os circundava. Estava ficando mais difícil respirar. Sensação claustrofóbica emanava dos túneis apertados sob a terra. Apesar de tudo eles prosseguiram. Falavam pouco enquanto duas horas perambulando a esmo na escuridão se arrastaram com a lentidão de uma eternidade, até que encontraram finalmente o homem santo. Ele estava respirando, mas seu corpo estava inerte. Forma alguma de consciência ilustrava seu semblante, dando-lhe uma aparência espectral: parecia estar morto, embora não o estivesse. Então o capitão do mato disse para seu último capanga:
- Vá procurar um médico! Não estou em condições de andar mais ou cavalgar! A facada! Veja! Está começando a infeccionar! Já sinto a febre começando!
- E o traste?disse que o dragão da água retiraria os poderes do santo...  
- Ele não vai a lugar algum...  
A magia indígena impedia que a consciência voltasse a habitar seu organismo.
O capanga partiu, acampando ao relento, durante a madrugada enevoada, e retomando o caminho ao amanhecer. Quando a tarde do dia seguinte estava caindo no crepúsculo, foi surpreendido pela chuva e teve que procurar abrigo, chegando por acaso a mesma casa grande abandonada em que estava a máscara.
As sombras se deitavam sobre as paredes. A água caía dos céus em meio a raios e trovões. Frio.
Havia uma carruagem, no quintal, na frente da casa grande. Estava virada como se tivesse sofrido um acidente. Seus pedaços quebrados estavam espalhados por alguns metros.
A chuva estava caindo pesada, mas o capanga se deteve alguns instantes antes de adentrar na casa grande e se esconder da chuva, pois uma cabeça humana estava presa na ponta de uma estaca fincada no chão em frente da entrada, ao lado da carruagem. O rosto do condutor da carruagem estava ali para denunciar a ignomínia do que está por vir. Veja isto, ainda está pingando sangue. O que aconteceu com este bastardo? Onde está o corpo? Veja quanto sangue.
O capanga do feitor entrou com a arma na mão. Caminhou devagar por algum tempo, mas não havia mais nada ali. Arrancou os pedaços de uma escadaria de madeira e juntando-os em uma sala ateou fogo para se aquecer. Pensou em comer alguma coisa, mas perdera o apetite. Logo adormeceu e dormiu até o cair da noite, após a chuva, quando a fogueira estava perto de apagar.
O último dos capangas do feitor se considerava durão, mas acordou sobressaltado. Um estrondo sonoro se propagou até ali, e perturbou a bruma dos sonhos, trazendo-o de volta ao mundo dos seres conscientes. Armando-se ele foi averiguar. Perambulou perdido como uma vítima, mas logo ouviu algumas vozes e se dirigiu até o lugar de onde elas vinham. Ficou escondido por alguns instantes, observando para entender quem eram aquelas pessoas e o que elas estavam fazendo ali.

A Morte do condutor da carruagem

Quando deixaram a casa do comerciante gordo, eles voltaram para a carruagem. Ao perceber o estado do comerciante gordo, o condutor disse:
- Este homem precisa imediatamente de um médico!
- Fala baixo... acordará os vizinhos. Você não tem escolha... vai fazer o que eu mando ou encontrará um fim prematuro... eu vou voltar à casa mais um instante, se não estiver aqui quando eu voltar, fique sabendo que contratarei uns conhecidos...
- Não fique irritado, eu coopero.
Um tempo depois o trapaceiro retornou, trazendo a jovem e o escravo esperto. Os dois últimos entraram na carruagem. O trapaceiro acompanhou o condutor na parte de cima da carruagem por quarenta minutos em uma estrada de terra mal iluminada, apontando-lhe uma arma na espinha. Desviaram-se das estradas seguras por medo de encontrar-se com o patrulhamento das estradas e rapidamente se perderam. A luz de um novo dia raiava no horizonte.
Enquanto isto, dentro da carruagem o comerciante gordo teve um ataque de dor. Ele já estava com um pé na cova, mas resistiu bravamente. Todos estavam adormecidos e acordaram de um sobressalto por causa dos gritos da jovem esposa infiel. A carruagem parou. Os gritos da jovem esposa continuavam. A porta lateral se abriu e o amante trapaceiro perguntou, com uma arma na mão.
- O que aconteceu aqui?!
- Esta coisa está viva! – ela tentou sair da caixa como se tivesse vontade própria!
- Você deve ter sonhado isto tudo, meu amor, venha me abrace.
- Onde estamos? – perguntou ela.
- Estávamos perdidos, mas já sei onde estamos. Seguindo a estrada para o norte, chegaremos a uma casa grande abandonada. Poderemos descansar lá um ou dois dias, o que você acha?
- Não há um lugar melhor para ir?
- É nossa melhor opção se não quisermos perder a máscara.
- Eu não sei mais se quero esta coisa! – exclamou a jovem.
A carruagem voltou a se movimentar e o amante trapaceiro acalentou a jovem até que ela esquecesse aquela ideia absurda de deixar para trás a máscara. Durante todo este tempo o escravo esteve amordaçado e imobilizado com uma corda. Em nada interferiu. O tempo passou e todos no interior da carruagem adormeceram. Por um longo tempo eles dormiram.
A manhã estava quase acabando. O condutor da carruagem também estava sonolento, mas não conseguia dormir porque sentia fome. Ele tinha pensado que ia ser tudo como nos outros dias. Um pagamento no final da noite, ele voltaria para seu lar, junto de sua esposa e dos filhos. Porém, a perfídia estava ali para anunciar a vingança cega e derramar o sangue de todos. De um momento pro outro, alguma coisa pareceu assustar os cavalos porque eles dispararam em um galope rápido e descontrolado. A velocidade aumentou.  
No interior da carruagem começou a sacolejar e as pessoas acordaram. Então todos viram. A caixa começou a se mexer, enquanto a jovem esposa tentava continuar segurando a caixa com a máscara, que parecia uma coisa mesmo viva, pulando e tentando sair enquanto o comerciante gordo dava seus últimos suspiros neste mundo sem misericórdia. Quanto mais se aproximava o comerciante gordo do momento definitivo de sua morte mais a intensidade dos espasmos constantes e violentos da máscara aumentava. Gritos de dor e medo. Chegara o grande final de um casamento trágico.
Estavam chegando aonde queriam quando o comerciante gordo deixou o mundo dos vivos, e a máscara foi atraída para o rosto do comerciante gordo. Em um momento de assombro, o cadáver se movimentou. Ficou sentado na carruagem diante de olhos espantados. A face dourada da morte encarou longamente as três pessoas ali dentro. Aos socos quebrou o teto da carruagem e alcançou o condutor, agarrando-o pelo pescoço. Observou de perto a luta para continuar respirando até ver profundamente estampado na face do condutor da carruagem o horror, o medo e a dor. Então antes que este morresse o monstro o atirou no caminho dos cavalos e estes o atropelaram. A carruagem tombou neste momento. Os cavalos caíram, mas conseguiram fugir depois de tudo. Na queda o monstro foi arremessado em um tronco e foi atravessado nas vísceras pelo galho de uma árvore. Por alguns instantes ele parou de se mover. Parecia ter retornado ao mundo dos mortos.
O trapaceiro e sua amante saíram da carruagem com escoriações leves. Decidido a tomar a máscara de volta, o trapaceiro se dirigiu até o local onde estava empalado o comerciante gordo, agora portando a máscara de ouro. Quando se aproximou, porém, eis que os movimentos retornaram ao corpo do monstro. O trapaceiro atirou para matar a a criatura, mas esta parecia imune a dor e seus ferimentos não provocavam reações em seu organismo. A única alternativa era fugir e se esconder. Foi isto que ele e a jovem esposa do comerciante gordo fizeram.
O monstro caminhou parecendo esquecer deles momentaneamente. Dirigiu sua atenção para o condutor da carruagem, que gemia de dor, implorando para morrer. O monstro o arrastou enquanto ele lamentava. Seu corpo estava totalmente destruído após ser esmagado pelos cascos dos cavalos, comendo poeira e quebrando os ossos. Pegando um pedaço de madeira da carruagem quebrada, ele a enfiou vigorosamente no chão, fazendo desta uma estaca. Então pondo-se atrás da vítima, ele envolveu seu pescoço com as mãos e puxou para cima. Aos poucos, os nervos, a carne, e os ossos começaram a se separar uns dos outros. Durante um breve momento (uma eternidade), o monstro arrancou sua cabeça do pescoço, com a brutalidade da vingança cega.
O trapaceiro e sua jovem amante estavam famintos e não havia o que comerem. O trapaceiro saiu para caçar, apesar da presença do monstro da vingança, mas nunca voltou com a comida. A mulher estava faminta, mas preferiu não se arriscar a perambular pela casa grande a noite. Acabou adormecendo. O monstro não apareceu para matá-la nesta noite, mas o trapaceiro não teve chance de viver mais um dia.

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Re: Traição e Vingança em Maverich atmosférica

Mensagem por Sub Versão em Sab Fev 27, 2016 9:16 pm

O trapaceiro se dá mau

Ele tinha saído para caçar desde o início da tarde e quando finalmente encontrara alguns coelhos adultos já estava caindo a noite, muito longe de onde deixara sua jovem amante. Enquanto saboreava a carne dos coelhos o trapaceiro pensava sobre ela. Talvez ele não devesse voltar para lá, mas deveria se dirigir a uma aldeia indígena, que não ficava longe de onde estava agora já que ele conhecia alguns índios de lá.
Ele conhecera os índios algum tempo atrás, quando eles estavam sem líder e se surpreendeu ao encontrar o pajé (que diziam ter sido capturado e estava desaparecido ultimamente), sentado no posto de chefe da tribo. Isto ia dificultar um pouco as coisas.
- Eu sei o que o traz a minha aldeia, homem branco, mas minha aldeia não pode ser útil a quem procura riquezas, sem nada ter para dar em troca.
- O que eu poderia dar a vocês que seria aceito como prova do meu valor?
- Se ganhar uma luta contra o nosso campeão, então ouvirei suas palavras e medirei o peso delas. Caso contrário por que deveríamos ouvir um rato sujo como você? Agora lutem!
Então se levantou um grande índio, alto e corpulento, que estivera esperando pela ordem do chefe. Todos os outros, incluindo mulheres e crianças, formaram um círculo em volta da fogueira e pararam para ver a luta. Nenhum deles, porém, percebeu a criatura sinistra que os observava das sombras, na mata que circundava a tribo dos índios.  
O trapaceiro e o índio começaram a luta desarmados. Com os punhos cerrados eles se rodearam brevemente. O índio atacou primeiro, com um soco alto, na altura da cabeça do trapaceiro, mas este manteve a guarda então atacou com um soco na barriga do índio. Logo em seguida, o trapaceiro levou um soco no olho direito e o sangue manchou a sua vista, mas ele revidou e acertou uma joelhada no queixo do índio, que finalmente derrubou este último. Enquanto o trapaceiro comemorava a vitória, o índio se levantou sorrateiramente e pegou um toco em chamas da fogueira. Ao se aproximar o trapaceiro se virou para o índio e vislumbrou o toco em chamas na mão deste último, que atacou, queimando o olho esquerdo do primeiro, cegando-o definitivamente. Os gritos do trapaceiro ecoavam:
- Isto não é justo! A luta tinha acabado! - a dor o impedia de raciocinar. Ele permaneceu em choque até que desmaiou. Em seus delírios febris ele falava sobre o que ocorrera na outra noite, enquanto os xamãs da tribo cuidavam de seus ferimentos.
Assim o chefe índio ficou sabendo da máscara de ouro e lembrou-se da noite anterior a sua fuga (pois estivera escravizado por um homem branco até pouco tempo atrás), quando teve que entregar o cinturão do dragão das águas verdes aos patifes da Intendência dos diamantes. Então decidiu averiguar os acontecimentos. Planejou sair de manhã com quatro guerreiros, mas a noite enquanto toda a tribo estava adormecida, a criatura da máscara de ouro cambaleou sorrateiramente sob as sombras do luar e matou um a um todos os cães da tribo, antes que eles pudesse alertar sobre sua presença nefasta. Depois voltou sua atenção para os moradores humanos da tribo, ou seja, os indígenas. Ainda havia dois índios montando guarda, armados com lanças. Durante um tempo o monstro esperou. Um deles se afastou para urinar e entrou na mata. Quando terminou, percebeu a densidade do silêncio que o circundava na floresta e assustou-se repentinamente. Ia sair correndo, mas um golpe de faca atravessou sua boca, perfurando o cerebelo e uma parte dos lobos occipitais de cada hemisfério cerebral, eliminando as ligações nervosas e destruindo o funcionamento do sistema nervoso central. Um dos índios de guarda estava morto e sua carcaça caiu inerte no chão. Enquanto seu sangue escorria com a vulgaridade da violência. Gotas de sangue mancharam a terra e um corpo se estendeu em cima dela. Ausência de movimento. O sangue se acumulou em volta dele como uma poça macabra.  
A noite se aprofundava na madrugada e o outro índio de guarda adormeceu de pé escorado no totem do dragão da água. Cochilou brevemente. Ao acordar achou estranho não ver o outro índio e saiu para procurá-lo. Quando passava por baixo de um galho, um corpo pesado caiu em cima do seu, derrubando-o e fazendo-o largar a lança. Ao ver a máscara o índio hesitou, fraquejando diante da magia do ouro, desistindo de lutar. Esta foi a última coisa que ele viu na terra dos vivos. O monstro enviou mais uma vítima para os domínios do além onde os mortos têm seu reino.
Em silêncio o monstro se dirigiu a uma oca em particular. Lá estava o trapaceiro, se recuperando de suas feridas. O brilho da faca que o matou jamais foi testemunhado por ele. Diversas vezes ela (a faca) o perfurou. Agonia cega. O sangue fluiu, manchando as páginas com sua presença emblemática, para tirar de cena um trapaceiro sonhador, que escavou o buraco em que iria cair, sem perceber a estultície de suas escolhas e ações. Enquanto seu pulmões perfurados doíam, a sua consciência se esvaía. O descanso chegara para ele sob o estigma da dor. Arrependimento tardio.
A energia maligna e a crueldade dos atos do monstro interromperam a harmonia mística dos pensamentos do pajé e seus sonhos foram afetados pela aura sem sentido desta presença macabra. A morte do trapaceiro provocara seu despertar. Ele se levantou, desvencilhando-se de sua mulher, e saiu para o terreiro. Ao ver os corpos de homens da tribo mortos, ele surpreendeu a monstruosidade enquanto ela saía da oca do vagabundo.
Após a morte do trapaceiro o monstro arrancou sua cabeça e saiu da oca. Em uma das mãos ele tinha uma faca manchada de sangue. Na outra, a cabeça do trapaceiro, com a expressão horrorosa de sua morte.
--  Abominação profana! Caia agora sob o poder da magia indígena! - ao final das palavras do pajé uma luz esverdeada passou a emanar de suas mãos, rapidamente se tornando um plasma fantasmagórico, e penetrando no corpo do comerciante gordo, através das narinas. O efeito esperado, porém, não ocorreu e o monstro teve a sua chance de atacar, tentando esfaquear por duas vezes seguidas o pajé, mas este escapou. Outros dos homens da tribo estavam de pé com sede de vingança e atacaram empunhando machadinhas. Seus ataques acertaram o alvo, mas apesar de terem enterrado fundo o machado nas costas do monstro, ele nem ao menos soltou a cabeça do trapaceiro ou a faca. Seu contragolpe foi fatal, perfurando e riscando um grande rasgo na extensão de boa parte da artéria femoral na perna direita de um dos índios. O outro indígena manteve distância do assassino.
O monstro, então, entrou na mata e se aprofundou na escuridão.
A tribo inteira acordou e todos se reuniram em volta de uma fogueira. Imediatamente iniciaram os rituais fúnebres, assim como os preparativos para a guerra. A criatura teria que morrer mesmo que para isto tivessem que perecer muitos bravos guerreiros da aldeia.  
Quando amanheceu a tribo se perguntava: que inimigo é este? Enquanto levantavam a voz com gritos de guerra, sabiam que era um inimigo cruel. Liderados pelo pajé eles partiram aos primeiros raios da manhã. Ao todo eram dez bravos chefiados pelo pajé. Cobriram uma grande distância em pouco tempo, e descobriram que o monstro deixara um rastro de sangue pelo caminho, matando animais e expondo suas vísceras para atrair aves carniceiras e indicar seu caminho a qualquer um que ousasse seguí-lo e opor-se a seus intentos assassinos.
Seguindo os urubus e animais devorados pelos vermes, eles alcançaram uma casa grande em ruínas, que tinha sido abandonada após a crise do sistema aurífero da região, onde perderam a trilha do monstro. Na casa grande arruinada não havia animais mortos. Ao invés disso, se depararam com uma cabeça humana, enfiada em uma estaca.
Entraram na casa e após algum tempo encontraram a doce jovem esposa do comerciante gordo. Ela estava faminta. Após ter matado a fome conversaram rapidamente.
- Vocês encontraram um homem branco charmoso por aí? - perguntou a jovem - ele partiu há dois dias e não sei o que aconteceu.
Os indígenas hesitaram para responder. Não é porque sentissem pela perda da jovem, mas sua hesitação em responder denunciou o ocorrido e ela compreendeu que uma parte de si perecera.
O chefe indígena falou:
- Nós te alimentamos e te informamos sobre o paradeiro de seu companheiro traiçoeiro. Agora precisamos que faça algo por nós... precisamos usá-la para atrair o monstro a uma armadilha!
- Você enlouqueceu! Como ousa? - respondeu a jovem, escandalizada.
- Você não tem escolha. É difícil controlar alguns de meus homens...
- O que quer dizer?
- ...
- Por que não diz nada?
- Nós a protegeremos, mas... terá que colaborar conosco. Antes de morrer seu companheiro delirou com a febre, e nos contou tudo sobre a máscara, sobre a vadia que dormia com ele enquanto o marido dela trabalhava, então para nós você não vale nada. Você não tem utilidade alguma! Por que deveria deixar você viver? Você merece morrer!
Um olhar do pajé foi o suficiente para que aquele que cegara o trapaceiro segurasse pelos cabelos a mulher e uma faca em sua garganta ele colocasse.
- Espere! Não! - implorou a jovem.
- Sua única chance é fazer o que estou lhe dizendo. Desta forma você poderá evitar o pior. Estes são os termos definitivos.
A jovem aceitou. Neste momento começou a chover.
O bando de Bagê
Bagê estava dormindo tranquilo. O homem santo frequentemente desaparecia por longos períodos. Apesar disso esta noite Bagê teve um sonho estranho:
"no lugar onde ele estava havia casas simples e era difícil ver o céu. então ele mudou de repente de lugar e agora estava revivendo uma cena de seu passado, em uma praça; estava havendo uma festa, mas quando as pessoas gritaram com emoção e explodiram alguns fogos alguém estava morto. Olhando para suas mãos ele as enxergava cobertas por sangue que ele derramara com a ajuda de uma faca. soltando-a ele percebia o horror a seus pés. Um homem assassinado por suas mãos com crueldade. Febril face do horror.
O homem  santo aparece em seu sonho e fala: - Não foi assim que aconteceu...
Então ele percebeu que tinha sido levado até um lugar escuro e decidiu caminhar após encontrar uma tocha. Pouco depois ele reconheceu a mina abandonada que guarda o segredo da morte dourada. A máscara surgiu em seu caminho. Ele voltou a praça ensanguentada de Maverich. Um cadáver a seus pés. A máscara de ouro estava em seu próprio rosto. Ele ia enlouquecer, mas o homem santo o tirou de lá e eles voltaram a mina. Caminharam enquanto o santo falava: - ela quer nos matar e está manipulando tudo!
O homem santo sumiu no ar (como se nada mais que um espectro fantasmagórico fosse) e Bagê pareceu ter ficado sozinho na mina. No entanto, havia ali um grande caixão fechado. Então ele ouviu gritos de guerra serem entoados."
Estes gritos o acordaram.
Então Bagê viu dois de seus homens serem golpeados fatalmente por lanças. Estava chegando a sua vez, mas ele conseguiu tomar para si a arma de seu inimigo e ferir quatro homens brancos. Os outros dois de seu bando (que ainda estavam vivos) eliminaram os outros dois dos seis inimigos que os atacaram.
- Bravo! - bateu palmas um homem vestido para a guerra, isto é, com um colete de malha e uma espada na bainha. Este era o chefe dos aventureiros que foi mencionado pelo feitor (sob tortura, na mina)  - Vamos ver como se saem contra mim!
Ele foi atacado pelos dois guerreiros negros, mas conseguiu vencê-los com relativa facilidade.
Bagê disse:
- Você é um covarde! mas por que matou meus homens?
- Estamos aqui pelo poder do Intendente. Não é nada pessoal...
A luta começou abruptamente. Bagê desacordou o chefe dos aventureiros com uma sequência fulminante de golpes.
Depois disso partiu cavalgando um dos cavalos de seus adversários derrotados, deixando-os para trás após espantar o resto das montarias. Desta forma até encontrar algum dos cavalos, o chefe dos aventureiros não poderá rastreá-lo com facilidade até aonde ele estava indo: a mina abandonada.

A armadilha para pegar o monstro

A jovem estava caminhando após o fim da chuva. Parecia estar sozinha, mas o monstro a espreitava. Então um pouco a frente dali, ela viu uma coisa no chão. Aproximando-se para ver de perto, ela pegou nas mãos a cabeça do trapaceiro, seu ex- amante. Ela gritou e quase entrou em pânico quando percebeu que o monstro estava diante dela. Um golpe de faca. Antes, porém, que seu intento assassino se completasse o pajé e seis de seus bravos atacaram com flechas e lanças, ferindo a monstruosidade tempo o suficiente para que a jovem escapasse. Então eles começaram a correr pela casa grande e atraíram o monstro a um trecho em que a integridade da construção estava comprometida. Quando todos tinham passado o monstro alcançou o lugar da armadilha.
- Agora! - gritou o pajé.
Seus homens começaram a golpear as vigas de sustentação com suas machadinhas. O monstro atirou a faca e um deles caiu. Outro índio foi tomar o lugar dele, mas o monstro se aproximava cada vez mais. Antes que o teto desabasse mais um dos indígenas pereceu em combate contra o monstro da máscara de ouro. Após esta morte, os golpes de machadinha surtiram efeito e derrubaram o teto em cima do monstro e este foi soterrado.
A jovem e todos os que sobreviveram ficaram contentes, mas o pajé ficou desconfiado.  
- O que vamos fazer agora, pajé? - perguntou o campeão da tribo.
- Quando arrancarmos a máscara da face do monstro, então vamos obter seus segredos.
- Quer dizer que não veio apenas para vingar nosso povo?
- Não venha com essa conversa mole... entende os mecanismos de funcionamento das forças em jogo aqui? Isto é uma guerra e envolve mais que uma pequena tribo lutando para sobreviver entre povos invasores! Os brancos tomaram nossas terras! e destruíram tudo! tudo! roubaram a natureza do nosso povo! mas apesar de tudo o que temos aqui é a magia negra! até a nossa língua...
- Está bem, não fique irritado.
Enquanto isto o capanga do feitor estava observando escondido. Ele tinha sido atraído até o local ao escutar o barulho de um desabamento não muito londe de onde estava dormindo. Decidiu não interferir já que estava em óbvia desvantagem numérica. Além disso, ele e o pajé eram conhecidos do tempo da Intendência dos diamantes, e um arrepio percorreu sua espinha quando percebeu que o primeiro falara sobre a máscara.
Os indígenas começaram a tirar as grandes pedras. Algum tempo depois o xamã disse:
- Está bem, ouçam com atenção agora! este monstro não é humano e seus limites também não são os de um homem!
- O que isto quer dizer?
- A criatura pode ter sobrevivido! É uma magia poderosa!
Após as palavras do pajé houve silêncio e ninguém se moveu por um momento.
Quando desenterraram completamente o monstro, e dele se aproximaram, fizeram-no com cautela. Isto não impediu o monstro de inadvertidamente derrubar um dos indígenas no chão e quebrar, com as próprias mãos nuas, o pescoço do mesmo.
O pajé saiu dali com quatro de seus guerreiros e a mulher branca.  
Além do indígena que teve o pescoço quebrado, três bravos ficaram para tentar derrotar o monstro, acertando dois golpes de machadinha. Seus golpes, no entanto, não foram fatais e o monstro assassinou dois deles, quebrando seus crânios, batendo-os um contra o outro repetitivamente com violência, até que suas cabeças se tornaram uma massa homogênea de carne, ossos e sangue.
O último bravo guerreiro mostrou juízo e escapou.
No meio da confusão, enquanto buscava um caminho para fugir do monstro, o pajé encontrou o capanga do feitor. Se lembrou dos maus momentos que passara na Intendência, escravizado pelo chefe dos aventureiros, quando fora forçado a ceder o uso de sua magia para as razões mesquinhas do chefe dos aventureiros e do Intendente.
O capanga do feitor se rendeu sem lutar. Ao terminarem de amarrar as mãos do capanga do feitor com uma corda grossa, o sobrevivente da batalha contra o monstro chegou correndo e aconselhou para que todos fizessem o mesmo.
- Todos estão mortos! - dizia ele - Mortos por causa dessa coisa!          
Todos correram bastante. Quando estavam um pouco longe dali (em outro ponto da casa grande abandonada) pararam para interrogar o capanga do feitor:
- Vejam só o passarinho que caiu na arapuca! - disse o indígena - um bastardo branco acha que pode sair por aí fazendo vítimas? você pode não acreditar ainda, mas se tornará em minhas mãos uma vítima a não ser... que me conte rápido tudo o que eu quero saber; caso contrário... é melhor não estragar a surpresa. O que está fazendo aqui, rato sujo?
- Cumpro ordens! eu apenas fiz o que me mandaram, mas aquele monstro tava na caverna e eu tive que partir em busca de um médico!
- Um médico para quem? parece estar em boas condições. Não minta pra mim!
- É verdade! não me machuque... - um soco forte na boca quebrou alguns dentes do capanga do feitor. Ele desmaiou, mas rapidamente o acordaram.
- Ainda quero saber de mais algumas coisas: que caverna é esta? e que monstro é este?
- acho que é o mesmo que está aqui! Um monstro horroroso! ele esfaqueou a perna do feitor, mas o ferimento está infeccionando rapidamente...
- Está bem, que direção devemos seguir para chegar a esta caverna?
- A noroeste daqui... é verdade! eu juro!
Eis que o monstro surge neste momento e os observa com o brilho do ouro na face. Todos começam a correr, mas o capanga do feitor foi deixado para trás e morreu nas garras monstruosas da criatura assassina. Seu sangue caiu no chão e se espalhou pela terra. Um cadáver quente sobre uma poça de sangue.
O restante deles fugiu daquele lugar maldito. O mais rápido que puderam, dirigiram-se à caverna de que falara o capanga do feitor, mas era muito longe e eles tiveram que parar para descansar e dormir. Eles prepararam acampamento e tentaram dormir.
O monstro, os perseguira. Dois indígenas foram assassinados. Seus corpos sem identidade, para serem comidos pelas aves, foram abandonados. Suas vísceras espalharam-se por oito ou dez metros no chão. Alguns pedaços de carne ficaram presos nas árvores e não havia quem limpasse. O restante conseguiu escapar graças ao sacrifício de guerreiros belos. Em sua morte porém, estavam desfigurados pela dor e horror.
- O que esta coisa procura? - perguntou o campeão da tribo.
- Pela garota a coisa mata os nossos, mas não a oferecemos a esta abominação!
- Ela desejava escapar com o ouro! Por que se preocupa com a mulher branca?
- Ela é jovem e ainda pode aprender com os erros. Agora chega desse assunto! Precisamos prosseguir ou o monstro nos matará durante o sono!
A viagem madrugada afora prosseguiu, correndo, quase sem descanso, fugindo da criatura cuja sombra era sempre sentida. No dia seguinte eles conseguiram descansar um pouco e se alimentar direito. O monstro não aparecera. A jovem parecia estar se interessando na virlidade do campeão da tribo, e eles passaram quase um dia inteiro conversando.
Faltando uma hora para o amanhecer eles alcançaram a mina abandonada.

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Re: Traição e Vingança em Maverich atmosférica

Mensagem por Sub Versão em Sab Mar 19, 2016 2:52 pm

A Guarda Nacional

De manhã a irmã do comerciante gordo chegara de surpresa em sua casa. Estava precisando de dinheiro e seu irmão talvez, pensava ela, pudesse ajudá-la. Na casa, quietude. Algo estava errado. O comerciante gordo teria lhe avisado se fosse viajar ou se tivesse mudado de casa. Ele sempre fora uma pessoa passiva, incapaz de tomar uma decisão e assumir a responsabilidade pela mesma. Antes era sua irmã (a mesma que a frente da sua casa agora espreitava para dentro) quem tomava as decisões por ele. Seria agora a sua jovem esposa?
A irmã do comerciante gordo saiu dali e procurou um lugar onde pudesse comer. Durante um tempo esperou.
Era de tarde quando a irmã do comerciante gordo procurou o chefe da guarda municipal. Juntos eles foram até a casa do comerciante gordo. Fazendo algumas perguntas na vizinhança descobriram que poderiam encontrar alguma informação no cabaré. Lá algumas pessoas comentaram que, ao contrário do normal, o trapaceiro e a jovem esposa do comerciante gordo, não tinham aparecido durante a noite para se divertir.
Voltando a vizinhaça do comerciante gordo, um homem velho disse que tinha acordado a noite para urinar e escutara algo que se parecera muito com o tiro de uma arma de fogo, mas como só estavam ele e a esposa, também idosa, em casa, achara melhor esperar até o dia seguinte para ir à delegacia e contar o que ocorrera. Tomara banho e estava se preparando para prestar queixa quando viu o chefe da guarda e a irmã do comerciante gordo. Depois de deixar a irmã do comerciante gordo em sua própria residência o chefe da guarda seguiu as pistas que foi encontrando.
Depois de jantar e tomar banho o chefe da guarda partiu com três homens de sua confiança e procuraram a casa de Leopoldino Boca de Ouro. Encontraram-no debruçado sobre uma caneca de cachaça, sorrindo com sua dentadura feita toda de ouro. O chefe da guarda iniciou a conversa:
- Um homem está desaparecido e o rastro dos suspeitos indica que eles partiram na direção das regiões abandonadas, e das cidades fantasma. Ninguém conhece aquela região melhor do que você e nós precisamos de um guia.
- Eu tenho que recusar! - foi a resposta do Caviar.
- Preste atenção, até agora suspeito de crime passional, mas pode ser um rapto ou... ouça, o que poderia motivar um casal aparentemente feliz a largar tudo da noite para o dia e partir na direção da morte certa nas terras fantasmas?
- Ouro!
- Por enquanto não temos provas para suspeitar de nada, mas este lugar é tranquilo e nada parece acontecer aqui. A única coisa que aconteceu nesta área do país foi o que aconteceu e isto foi há... quanto tempo... três anos?
- Três anos e meio. Se está suspeitando de que o monstro que há três anos e meio arrancou os meus dentes um por um durante sabe-se lá quantos dias ou semanas voltou a fazer vítimas então eu tenho que recusar!
- Entendo. Está obstinado em sua escolha... tudo o que peço é que por esta noite conceda abrigo aos meus homens e suprimentos ao partirmos para não morrermos de fome cumprindo nosso dever.
- Sintam-se em casa esta noite, mas partam pela manhã.
Apesar das palavras rudes Caviar não conseguiu dormir à noite. Relembrava várias vezes a sensação dolorosa em ter arrancados os dentes sem anestesia ou cuidados médicos adequados. Tortura. De manhã eles partiram juntos decididos a acabar com a criatura assassina de uma vez por todas.
Se aprofundaram no matagal e em duas horas encontraram a trilha da carruagem. Seguiram-na. Quando estavam se aproximando da casa grande abandonada, ouviram o som de pés estalando gravetos no chão próximo. Decidiram investigar de que se tratava. Caminhando silenciosamente eles encontraram o escravo esperto caído no chão. Quando viraram seu corpo descobriram que ele ainda respirava e um fio de consciência se encontrava em seu olhar. Eles deram água para ele e seu aspecto melhorou, mas também estava faminto.
- Se me derem comida - disse ele - eu terei forças para levá-los ao lugar em que se encontra o comerciante gordo, mas agora aconteceu alguma coisa com ele! Vocês não iriam acreditar!
Caviar sorriu. Eis que ao ver o ouro nos dentes de Caviar o escravo exclamou:
- O ouro! O ouro!
Não restava mais dúvidas.
Eles comeram juntos e descansaram um pouco. Voltaram à busca e encontraram a carruagem e a cabeça do condutor em frente a casa grande. Além disso, encontraram também todos os outros cadáveres que estavam na casa grande. Corpos dos índíos e do capanga do feitor.
Os rastros prosseguiam. Deixaram a casa grande.
Mais a frente outros cadáveres indicavam que eles estavam na direção certa. Medo. Violência. Morte. Seguiram a trilha de corpos e foram atraídos até a mina abandonada.
Perscrutando-a de fora perguntavam-se: seria este o lugar da morte? seria hoje o meu último dia?
Perguntas sem resposta se dissiparam como fumaça, dispersando-se como poluição. A massa negra das rochas que compõem a mina abandonada se erguia como um arauto da carniça, e um emblema do sarcasmo. A ironia de sua grandiosidade escondia a tragédia de um dia-a-dia banal. Vidas foram destruídas no interior de suas profundezas e desconhecida é a extensão de suas trevas. Rotular a asfixiante atmosfera de silêncio e abandono que a atravessa é tarefa para poetas apaixonados pela ruína. Ao adentrar este local esquecido, o tempo se dissolveu como o sal na água. Perambular pelos meandros frios da escuridão e chegar a um lugar cheio de mortos. Apenas um homem negro com a máscara de ouro nas mãos permanecia ajoelhado em meio a todos os cadáveres.

A mina abandonada
Antes de entrar na mina o monstro ressurgiu. O xamã invocou sua magia. Um grande número de pássaros atacou o monstro, derrubando-o e dilacerando seus olhos sob a máscara. Um grande rasgo no pescoço do comerciante gordo foi aberto por bicos famintos por sangue, mas isto não foi o suficiente para deter a criatura. Enquanto o xamã e os outros entravam na caverna o monstro começava a abater alguns dos pássaros. Suas forças foram diminuindo. Os pássaros interromperam o monstro por enquanto. Tempo. Por trás da linguagem escondido está o significado de sua passagem. Linear. Quando não há volta os erros devem ser evitados. Para errar tiveram que nascer, mas estavam certos nesse momento.
O espaço obscuro no interior da mina abandonada engolia tudo em que pusesse as garras. Afiado como uma faca, seu fio rutilava e refletia na retina dos bravos que entravam ali. Calafrios percorriam suas espinhas quando, um a um, foram reduzidos a mortos sem a percepção dos próprios companheiros. Não fora um monstro o produtor de tamanha ruína nas forças dos inimigos do homem santo.
O aço frio cortara gargantas e perfurara pulmões, deixando para morrer na escuridão aqueles que planejavam atacar o homem santo para tirar-lhe a vida. As horas iam passando e perdidos na mina estavam o xamã, o campeão de sua tribo e a jovem esposa do comerciante gordo. Vítimas tragadas pelo horror. Quando o desespero invadiu seus pescoços e seus corações pareceram tentar saltar para fora de seus corpos, encontraram o corpo do homem santo ao lado do cadáver do feitor. Ao vê-lo alegrou-se o coração do índio, mas ele não esquecera que estavam todos mortos os bravos guerreiros de sua tribo por causa da magia do homem santo.
Antes, porém, que pudesse atacá-lo e concluir o objetivo que o trouxera até ali, o monstro retornara, eliminado o campeão da tribo. Esfaqueou-o tão profundamente que uma parte de suas vísceras saiu pelo nariz e pela boca. Ao cair no chão morto estava aquele que o trapaceiro cegara. Sabendo que seria o próximo o pajé não teve alternativa, e retirou a magia do cinturão indígena, libertando o homem santo. O grande dragão da água deixou o corpo do último e se projetou no ar, penetrando no corpo do pajé através das vias aéreas. Seus olhos brilharam como chamas e ele atacou misticamente a criatura. A luz se intensificou e todos os presentes fecharam os olhos por causa de tal luminosidade. O monstro fumegava caído no chão, mas o brilho da máscara mantinha sua eloquência e seu olhar inexpressivo trazia uma ponta quase incógnita de satírica sensação.
O homem santo ainda estava atordoado e foi atacado novamente pelo mago indígena. Não conseguiu revidar. Antes que estivesse morto o homem santo, Bagê interferiu e matou o indígena. O monstro aproveitou a oportunidade para assassinar definitivamente sua jovem esposa, com inúmeras facadas. O sangue escorreu pelos lábios dela e tingiu o chão com a sensação de suas dores. Lembranças de uma vida curta atravessaram sua mente em um instante e ela tombou. Viver não era mais uma escolha para ela, a quem negada estava a dádiva da existência. Entregue estava ao descanso prematuro.  
A matéria sólida tem, entre suas propriedades, a distorção dos ideais. Todos são vítimas quando o mundo real é mais aterrorizante que a ficção. Como algozes levantando para golpear a nuca dos criminosos. Assim são os que procuram a vingança. Não encontram na frialdade doce de seu gosto, o mesmo valor que há na misericórdia. Fracasso é o que há para estes. Não pode ser encontrado o sabor da paz na mente dos que estão em guerra consigo mesmos.
O homem santo não sobreviveu e o monstro desabou no chão. Chegara ao fim a matança do mostro, mas os guardas que estavam vindo não queriam o termo da violência. Os homens da guarda nacional encontraram a chave para decifrar os mistérios: ali estavam o comerciante gordo e sua jovem esposa.
- Fechamos o caso! A máscara de ouro é nossa!
Bagê não se entregaria sem luta, mas os tiros perfuraram seu corpo e logo depois as facadas atingiram seu coração. Seu sangue fora derramado e não houve piedade no final de sua vida guerreira. O escravo esperto não se sentiu bem ao ver agonizando morto no chão o guerreiro outrora imponente. Por causa disto atacou os guardas. Seu fim igualmente foi a morte na mina. Ao partirem, os homens da guarda e o Caviar (agora Boca de ouro), levaram para serem enterrados adequadamente apenas o comerciante gordo e sua jovem esposa.
Após algum tempo chegou a cidade o chefe dos aventureiros a mando do Intendente das minas de diamante. Ele queria saber do que ocorrera nas semanas anteriores e interrogaram o chefe da guarda.
- O Caviar ficou com uma pequena parte do ouro logo após a Coroa ter pegado para si os impostos.
Voltando à Intendência as notícias decepcioanaram o Intendente, mas contra a Coroa nem mesmo ele ficaria. Assim tudo parecia estar acabado, mas o homem santo avisara para que não derretessem o ouro da máscara.
O Caviar Leopoldino Boca de Ouro enlouqueceu aos poucos, tomado pela febre do ouro maldito. Seu fim foi o suicídio. Após isto ele foi enterrado.
Ao chegar na metrópole o ouro foi transportado para a ilha industrial do continente branco, navegando mais uma vez, através do oceano, embora a distância fosse menor que entre a colônia e a metrópole.
O tempo passou. No século XIX, na ilha industrial, o ouro amaldiçoado da máscara foi tocado pelas mãos dos seres humanos e a insanidade foi o seu presente. Todos os que o tocavam ou possuíam-no perdiam a razão e deixavam de ser humanos. O ódio os consumia como um cigarro em brasa e a violência turvava-lhes o controle sobre seus atos.

                                                                                                            FIM
(Desta vez a história acabou mesmo, eu apreciaria se alguém comentasse; agora voltarei a publicar no fórum a continuação da história da VACINALI - N; espero que tenham curtido)

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