Almas Nocturnas - Capítulo 2 - Vampiros

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Almas Nocturnas - Capítulo 2 - Vampiros

Mensagem por Paulo_Gomes em Seg Fev 13, 2012 7:08 pm

- O Alex está outra vez atrasado. – Comentava Catarina, olhando para o relógio que trazia no pulso.
Carlos espreitou para a rua através dos vidros embaciados da janela e abanou a cabeça. Não se via ninguém na rua.
- Sempre a mesma coisa… – Comentou – Será que voltou a ter pesadelos?
- Sei lá… Mas ele tem andado tão estranho ultimamente. – Respondeu Catarina, levando uma chávena de café à boca.
Os relógios marcavam 9 horas em ponto e os termómetros registavam temperaturas abaixo de zero. Estava a ser um dos meses mais frios do ano.
As ruas encontravam-se praticamente desertas, espelhando bem o espírito daquele dia frio e cinzento.
- Eu não consigo perceber do que é que o Alex tem tanto medo… Afinal ele é um vampiro, um ser imortal.
- Cala-te! – Berrou Carlos, alterado – O que sabes tu sobre vampiros? Tu… que és apenas uma humana vulgar... Tu não sabes nada de nada sobre nós.
Catarina baixou a cabeça, assustada.
Não era fácil lidar com o comportamento impulsivo e quase irracional de Carlos. Ele assustava-a de morte. Era um homem áspero, insensível, frio e bruto.
Alex era mais doce. Era simpático e afável.
Catarina tinha uma paixão louca por ele mas, infelizmente, a mesma nunca lhe tinha sido correspondida.
Talvez por ele ser um vampiro e ter medo de a magoar, ou então, porque não estaria interessado em envolver-se com uma mulher tão insignificante como ela. Uma simples humana, fraca e sensível.
Carlos fitou-a directamente nos olhos e murmurou algo imperceptível por entre os dentes.
Ele parecia algo nervoso e receoso também.
A presença de Catarina não era muito do seu agrado, mas como no fundo, era uma amiga de Alex, ele recebia-a em sua casa como se ela fosse uma da sua espécie.
- Desculpa ter-me exaltado contigo.
O ambiente tinha ficado pesado entre os dois, e ambos se sentiam ligeiramente desconfortáveis.
- Mas… Diz-me lá, Catarina. Que ideia tens nossa? – Perguntou Carlos, amenizando a voz – Que ideia tens dos vampiros? Tens a ideia que somos seres imortais, que não sofrem, que apenas espalham o terror e o caos? Que somos Deuses ou algo do género?
A rapariga continuava a manter uma expressão assustadiça e o seu tom de voz mostrava-se trémulo e inseguro.
- Eu… Eu… Acho que os vampiros são seres que nunca morrem, nem envelhecem…
- Quer dizer… – Interrompeu-a Carlos – És daquelas pessoas que acreditam em tudo o que vêm nos filmes ou lêem nos livros? Que um vampiro é imortal e só morre com uma estaca espetada no coração. É isso?
As suas expressões eram espelhos de ironia, o que assustava ainda mais a pobre rapariga.
Como ela desejava que o Alex aparecesse…
O olhar de Carlos estava a aterrorizá-la. Era hipnotizador e continha algo de maligno. Além de a inquietar, parecia querer apoderar-se da sua alma.
“A sede…A sede…”
Carlos esforçava-se para conseguir manter a sua lucidez mas a sede que sentia ao olhar o corpo da rapariga estava a aluciná-lo.
As pálpebras dos seus olhos encontravam-se ligeiramente dilatadas e a sua mente começava a ser um portal de alucinações sangrentas e carnívoras.
Por quanto mais tempo iria resistir sem tocar naquela pele tão jovem e tenra?
- Nunca confies num vampiro, Catarina. – Deixou escapar por entre dentes – A nossa sede é enorme.
A jovem sentia que corria perigo.
Ele olhava-a como se fosse um lobo esfomeado.
Catarina já tinha presenciado uma imagem igual, no dia em que descobriu o segredo do seu amigo Alex.
Nessa noite, escura e sombria, Catarina dirigia-se a casa depois de uma saída com uns amigos.
Ela caminhava sozinha e veloz, pois a hora já era tardia e os seus pais encontravam-se acordados à sua espera.
Era muito jovem ainda, com apenas 18 anos feitos à meia dúzia de dias.
O seu passo apressado foi interrompido por um berro, vindo por detrás de uma cerca velha que se encontrava poucos metros à sua frente.
O que estaria a acontecer?
Curiosa, resolveu espreitar por cima dela e foi então que teve uma visão de puro pesadelo, pura ilusão…
Uma jovem encontrava-se estendida pelo chão e alguém, de aspecto sombrio, estava debruçado sobre ela e a morder-lhe o pulso do braço esquerdo.
Estava muito escuro e ela não conseguia reconhecer os protagonistas daquela tela macabra.
Apenas visualizava um vulto, alguém vestido de negro e uma jovem com um vestido curto e florido.
Mas mesmo assim, conseguia enxergar o momento de horror pelo qual a rapariga estava a passar.
Esta contorcia-se pelo chão, moribunda, quase a perder os sentidos enquanto a pessoa que se encontrava a seu lado, se deleitava a chupar-lhe o sangue das veias.
Catarina quase nem queria acreditar no que os seus olhos presenciavam.
Encontrava-se atónita perante tamanha atrocidade.
O seu coração batia desenfreadamente no seu peito e apetecia-lhe berrar, mas os seus lábios encontravam-se selados, sem reacção.
Ela não conseguia continuar a presenciar tão horrendo crime, sem nada poder ou conseguir fazer.
Sendo assim, virou costas e retomou o caminho de casa, com um frio enorme a percorrer-lhe a barriga.
As imagens macabras que acabara de presenciar não lhe saíam da cabeça e os seus passos eram agora inseguros e dados a medo. Parecia embriagada pelo odor do sangue que se fazia sentir naquele local.
Com os olhos embaciados de lágrimas começou a acelerar o seu andamento. Estava ansiosa por chegar a casa e trancar-se no quarto, fingindo nada ter visto.
Horror… Sangue… Terror no seu estado mais puro… Acto de crueldade maquiavélica… Eram pensamentos que se repetiam no seu subconsciente, aterrorizando-a por completo. Como seria capaz de retirar tais imagens de dentro de si?
Mas foi então, que Catarina ouviu passos atrás de si.
Alguém a seguia.
O medo começava a transformar-se em pânico… O horror em realidade asfixiante.
Os passos aproximavam-se… Estavam cada vez mais perto… Perto demais até.
Fosse quem fosse, estava mesmo atrás dela, quase encostado ao seu corpo. Ela conseguia ouvir a sua respiração… E o cheiro a sangue fresco que parecia trazer entranhado, qual espécie de perfume demoníaco.
E ouviu então uma voz chamar o seu nome…
Ela conhecia esta voz… Esta forma tão suave de pronunciarem o seu nome… Uma voz tão doce que a fazia sonhar desde nova.
Catarina parou.
Seria ele?
Seria o Alex, o homem por quem sempre tivera admiração e por quem nutria este sentimento tão especial e secreto?
Cautelosamente, rodou a cabeça por cima dos ombros e tentou visualizar quem se encontrava atrás dela.
Nada… Não se via ninguém.
Não se encontrava ninguém por perto.
Era tudo uma ilusão, talvez devido ao seu alto estado de nervosismo e pânico.
A estrada por onde houvera caminhado encontrava-se vazia, escura, sem um único som, além do normal barulho da noite, com o seu vento sussurrante e gelado.
Mas, no momento em que se voltou novamente para a frente, disposta a retomar o seu percurso, os seus olhos vislumbraram-no, escassos metros à sua frente.
Alex observava-a com ar perverso e os seus lábios encontravam-se pintados a sangue.
Catarina tremia, sem reacção.
Afinal sempre era ele.
O homem dos seus sonhos, a sua fonte de inspiração, a sua alma gémea…
Alex encostou-se a ela e acariciou-lhe os cabelos ondulados.
Ele estava tão diferente, tão misterioso, tão assustador…
- Vais-me fazer mal, Alex? – Perguntou Catarina, numa espécie de gemido.
Ele nem a parecia ouvir… Parecia estar num transe hipnótico em que apenas a via como uma presa.
Mas o seu toque era carinhoso. A forma como afagava os seus cabelos parecia confortá-la ao invés de a aterrorizar.
Talvez mesmo neste estado de mutação, ele estivesse consciente que Catarina era sua amiga e não lhe quisesse fazer mal.
- Vais-me magoar? – Voltou a perguntar a jovem, colocando-lhe as mãos sobre a face e fitando-lhe os seus enormes olhos azuis.
Alex tremeu ao sentir os dedos da rapariga na sua pele… E cambaleou.
As suas expressões transformaram-se e agora já não deixava transparecer um ar maligno, mas sim um ar comprometido, como se o houvessem despido e lhe houvessem apreciado a sua intimidade tão secreta e tão bem guardada.
Nisto, desatou a correr e deixou Catarina novamente só, a interrogar-se às estrelas sobre o que teria acontecido ali.
E agora, Catarina voltava a presenciar o mesmo olhar maligno e perverso, a esbater-se sobre si.
Mas desta vez, era Carlos quem a observava.
Um ser mais forte que Alex, muito mais desumano também. Alguém sem compaixão, com instinto de predador escrito na pele.
E ela sabia que não era com uma carícia ou com uma palavra mansa que o conseguiria acalmar.
Se pretendia sobreviver a este embate tinha que ser forte. Não podia mostrar-se fragilizada, nem dominada pelo medo. Se tal acontecesse, ela tornar-se-ia uma presa fácil demais para ele.
Carlos agarrou-a por um braço, puxando-a até si.
Aí a tinha, como pretendia, encostada ao seu corpo, alucinando com o aroma do seu corpo e imaginando o quão doce seria o seu sangue.
Bastava-lhe uma pequena mordidela para saciar a sua vontade louca de beber.
- Cheiras tão bem… – Balbuciou com os olhos vidrados e brilhantes.
Catarina tentou livrar-se do aperto das suas mãos ásperas mas este nem estremeceu.
Carlos era um vampiro possante, bastante entroncado e com uma força descomunal. E Catarina parecia uma simples folha de papel nas suas enormes mãos.
- Onde pensas que vais?
Ele estava desejoso por saciar o seu apetite com o sangue quente da rapariga.
Nada, nem ninguém o poderia agora impedir.
A boca aberta mostrava dois enormes dentes pontiagudos, que sobressaíam no meio de uma saliva ávida de sangue.
Catarina estava bem consciente que estes podiam ser os seus últimos segundos de vida mas, mesmo assim, tentava controlar-se. Não queria entrar em pânico pois sabia que, se tal acontecesse, seria bem pior.
Não tinha forças para lutar com ele e nem saberia como o fazer, mas estava disposta a resistir até ao último suspiro.
Carlos agarrou-a pelo cabelo e puxou-a, deixando o pescoço tenro da jovem a descoberto e a centímetros dos seus afiados dentes.
Ele sentia o coração dela a bater exageradamente, fazendo com que o sangue fluísse e circulasse mais rapidamente nas suas veias. Era o momento ideal para saciar a sua infinita sede. Sim… Finalmente chegara a hora de voltar a sentir o sabor doce de uma jovem na sua boca.
Catarina fechou os olhos e tentou impedi-lo, colocando a mão direita na sua face. Ela queria afastá-lo mas não tinha forças. Sabia que era um esforço em vão, perante tamanho monstro sanguinário.
Restava-lhe rezar para a sua morte ser rápida e indolor.
Os seus olhos permaneciam fechados e os segundos pareciam demorar eternidades. Mas, afinal, porque estava ele a demorar tanto tempo para a morder?
A medo, abriu os olhos e olhou para Carlos.
Este parecia adormecido, quase que hipnotizado.
As suas feições haviam mudado. Agora parecia calmo, com os olhos e a boca fechada. Parecia num transe profundo.
Catarina aproveitou a oportunidade para se tentar livrar do aperto das suas mãos e empurrou-o.
Carlos largou-a e cambaleou.
Parecia esgotado, sem forças…
A jovem encontrava-se atónita, sem conseguir encontrar uma explicação plausível para o sucedido.
Já o mesmo houvera acontecido quando Alex se aproximara dela na tentativa de a morder.
No exterior da casa ouviu-se um estrondo causado por um trovão. Uma tempestade aproximava-se, sem que nada o fizesse prever.
Catarina permanecia imóvel a observar aquele que momentos antes a tentara matar.
Aquele vampiro impiedoso e sem sentimentos, sofria agora como se transportasse um fardo enorme de culpa e arrependimento.
As peças encontravam-se baralhadas como um puzzle e Catarina não estava a conseguir decifrar o enigma.
Um novo e ensurdecedor trovão rasgou os céus e ecoou nas ruas desertas da cidade.
Desertas ou quase…
Alguém se dirigia, com passo apressado, até aquela mesma casa.
Além de apressado, nervoso, tropeçando aqui e acolá.
Ao chegar à entrada da casa, bateu três vezes na porta e aguardou impacientemente, carregado de um nervosismo impressionante.
- É o Alex! – Gritou Catarina, correndo velozmente para abrir a porta.
A porta abriu-se e a rapariga vislumbrou um jovem magro, com óculos, aparentemente frágil devido à sua estrutura esquelética.
- Catarina? – Perguntou o rapaz – És a Catarina, não és?
A rapariga acenou afirmativamente com a cabeça, mas não conseguindo esconder uma ligeira desconfiança quanto a este desconhecido que se encontrava na sua frente.
- Posso entrar? – Pediu ele com simpatia.
- Claro. Entre!
O jovem entrou dentro de casa e fechou a porta pesada por detrás dele.
Carlos encontrava-se a poucos metros de distância, encostado à parede e também ele parecia intrigado com este estranho que lhe entrara pela casa dentro.
- Desculpem. Eu sei que vocês não me conhecem… Mas eu sei quem vocês são. Eu conheço-vos. Eu vim cá, pois temos que nos unir para salvar o Alex. Se o perdermos é o fim da humanidade. Garanto-vos… É mesmo o fim do mundo, tal como o conhecemos. Eu estou aqui para vos ajudar.

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